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(p)1999-2008 por Leo Mano. Rio de Janeiro - RJ, Brasil
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A Lenda De Faraq


AR02 - Solução da Análise Retrógrada

Uma antiga lenda conhecida por todos os povos mais antigos do oriente, conta a história de um pequeno príncipe que perdeu os pais quando ainda era um bebê. O príncipe Sarahuan tinha dois anos de idade quando o castelo de sua família foi invadido pelos lákmidas. Muitas vilas e pequenas cidades localizadas desde a Fenícia até a Palestina foram dizimadas.

Antes da invasão, a região vivia em paz há quase duzentos anos. A riqueza acumulada pela família de Sarahuan durante aquele tempo não a afastava de seus súditos, pelo contrário, o Rei Sara Al-Faraq, pai de Sarahuan, era muito respeitado em toda região. A população hassânida, que habitava toda aquela região, realmente gostava da maneira com que o Rei conduzia os assuntos que diziam respeito à eles. Havia muito comércio entre as cidades vizinhas e um intenso intercâmbio entre os povos.

Este paraíso, contudo, atraía a atenção de outras nações. Mas a invasão promovida pelos lákmidas, um povo que vivia mais próximo à Pérsia, teve uma motivação adicional: O boato de que o castelo de Faraq abrigava um salão completamente cheio de jóias e ouro. Alguns juravam que neste salão caberia toda a água do rio Eufrates e estaria num subsolo cuja área seria a mesma do próprio castelo na superfície, ambos protegidos pelos imensos muros de quatro metros de espessura, doze de altura e (diziam) sete de profundidade.

O fato é que quando as tropas invasoras dominaram o castelo, acabaram por encontrar o grande salão subterrâneo. O salão estava completamente vazio e nele encontraram apenas os pais de Sarahuan jogando xadrez. Foram torturados até a morte e jamais sequer admitiram a existência de tamanha fortuna.

Os lákmidas mataram todos os membros da família real e, dizem, usaram o salão subterrâneo como tumba. Após amaldiçoar a alma de todos eles, lacrou o salão e convocou os deuses para que executassem qualquer um que tentasse entrar ali.

Enquanto isso, o pequeno príncipe Sarahuan estava em segurança longe dali. Dias antes da invasão, o Rei Faraq já havia entregue o bebê aos cuidados de seu mais leal guerreiro com instruções expressas para se dirigirem à cidade de Uegih e lá permanecer. O Rei providenciou soldados, cavalos, mantimentos e algumas damas para cuidar do bebê. A maior parte da carga, aliás, pertencia à criança. Nada muito luxuoso, pelo contrário, havia apenas o mínimo necessário para o conforto do bebê além de um pequeno baú lacrado com o selo real. As instruções diziam que ele só deveria ser aberto pelo próprio Sarahuan quando completasse 8 anos.

Aquela criança viveu uma infância complicada. O exílio exigia cuidados constantes com a segurança e, a medida em que os anos passavam, o isolamento se tornava mais e mais impiedoso. Quando Sarahuan completou 8 anos de idade, as terras hassânidas ainda estavam ocupadas por tropas lákmidas e a sua verdadeira identidade ainda era uma sentença de morte em toda a região. Por esta razão seu aniversário foi comemorado quase em segredo. O pequeno príncipe deveria ficar sabendo que, a partir daquele dia, ele se tornaria Rei dos hassânidas. A cerimônia, apesar de simples e reservada, cumpriu todos os rituais ditados pela tradição e culminou com a abertura do baú pelo próprio, agora Rei, Sarahuan Al-Faraq.

O baú continha apenas papéis. Eram documentos onde estavam registrados os direitos herdados pelo pequeno Sarahuan, as extensões do reino, as tradições, dados sobre a própria família, mensagens dos pais e parentes mais próximos e, o mais curioso, as regras do jogo de xadrez.

Quando o pequeno Sarahuan fechou novamente o baú, o fiel guerreiro de seu pai, Hamat, entregou-lhe um envelope também lacrado pelo selo real. O envelope foi aberto e nele estava escrito

"Meu filho, que Allah esteja contigo, grande Rei Sarahuan Al-Faraq. Hoje você se tornou Rei de uma nação que já foi a maior sobre a terra. A dominação lákmida deverá ser combatida e você é a única pessoa capaz de expulsar os invasores de nossas terras e devolver aos nossos povos a paz na qual sempre estiveram acostumados a viver. Comece por onde tudo terminou."

- O que significa isso, Hamat? - perguntou o menino ainda sem entender bem tudo o que estava acontecendo.

- Majestade...

- Majestade? - o pequeno rei foi pego de surpresa. Hamat, seu companheiro e único amigo de confiança, nunca o havia chamado de "majestade" antes. Toda aquela cerimônia deixou o pequeno Sarahuan um pouco assustado. Intrigado, ele perguntou em tom sério... - Eu não sou mais Sarahuan?

- Claro que sim... majestade... mas agora o pequeno Sarahuan é um grande Rei. Sou seu escravo e fiel guerreiro. Exatamente como fui de seu pai.

- As damas e carregadores são escravos. Você não! Você é meu súdito e fiel guerreiro! Será o único com permissão de me chamar pelo nome, já que não tenho família... Caso contrário, vou acabar esquecendo meu próprio nome...

- Está bem, Sarahuan. Seu desejo é uma ordem. Estou muito honrado...

- Não comece de novo. Como meu pai acha que eu serei capaz de expulsar um exército inteiro das terras que eram nossas? Pelo que entendi elas vão até a Palestina...

- Você ainda é muito jovem. Tudo virá a seu tempo.

Durante muito tempo o pequeno Rei pensou que o xadrez havia sido inventado por seu pai. Aquelas folhas com as regras do jogo, entre todos aqueles documentos, eram a única coisa que o fazia lembrar de seu pai como uma pessoa amiga e não como um Rei ou um Deus. Fez questão de aprender a jogar e a ensinar a todos que o cercavam. Como não podia deixar de ser, tornou-se um grande jogador e, sem dúvida, era o melhor da aldeia onde viviam.

Os anos se passaram, Sarahuan cresceu e amadureceu. Descobriu que muitos povos ainda respeitavam seu pai como a um Deus e constatou que não lhe faltaria ajuda se um dia viesse a usar as armas contra o exército lákmida. Mas lhe faltavam recursos... Uma empreitada deste porte exigia muita organização e os gastos seriam enormes.

- Não sei nem como começar, Hamat. O que podemos fazer?

- Devemos seguir o conselho de seu pai: Começar por onde tudo terminou.

- Quer dizer que teremos de voltar ao castelo. Eu soube que ele está em ruínas e o salão subterrâneo está lacrado até hoje.

- O local está abandonado, Alteza... Eu mesmo verifiquei. O medo da punição dos deuses e a possibilidade de encontrar os fantasmas de seus pais manteve o salão intacto até hoje. Mas eu creio que os deuses não se atreverão a punir o grande Rei Sarahuan Al-Faraq.

- Você está sendo irônico... Quer que eu acredite que você não tem medo de ir lá e desafiar o poder dos deuses?

- Ao seu lado eu não terei medo de nada...

- Então vamos, Hamat. Se os deuses estiverem lá, meus pais também estarão para nos ajudar.

Sarahuan e Hamat, após três dias a cavalo, chegaram nas ruínas do castelo e começaram a procurar a entrada do salão. Hamat localizou a entrada sob várias pedras que foram removidas com a ajuda dos cavalos.

- Conseguimos, alteza! Vamos acender as lanternas e ver o que tem lá embaixo.

O acesso aos salões era um túnel em direção ao subsolo. Quando desceram as escadas, Sarahuan estava nervoso e com medo mas, mesmo assim, fez questão de ir na frente. A sensação era a de que os deuses estavam observando e aguardando o momento certo para a execução sumária. A escuridão não permitia Sarahuan perceber a imensidão do salão apesar da tentativa de Hamat apresentar-lhe o local.

- Seus pais costumavam ficar ali. Eles gostavam de jogar xadrez e ficavam horas desfrutando do silêncio e da tranquilidade daqui.

- Hamat, você conheceu bem meus pais, não é?

- Oh, sim. Eu tive a honra e a felicidade de freqüentar o castelo desde que nasci. Meus pais serviram seus avós... Eu também considerava este castelo como sendo meu lar.

- Eu sou mais parecido com minha mãe ou com meu pai?

- Você é a cara de seu pai e joga xadrez tão bem quanto sua mãe. Ela era muito inteligente. Seu pai sabia disso e nunca ignorava seus conselhos.

- Desculpe-me, Hamat... eu já lhe perguntei isso centenas de vezes...

- Não se desculpe. Fico feliz de ter sabido lhe ensinar tudo que seu pai representava. Todos nós o amávamos.

- Não consigo entender como puderam ter coragem de mata-los...

- Eles foram mortos pela cobiça, Sarahuan... a cobiça dos homens. Vieram atrás de riquezas mas só o seu pai entendia que a maior riqueza de um homem é a sua liberdade.

- Riquezas... E o tesouro? Ele existia mesmo?

- Claro que sim, Sarahuan. Mas ele não ocupava todo o salão. Ele costumava ficar naquela outra sala ali atrás. Mas foi removido para um lugar seguro poucos dias antes da invasão.

- E para onde levaram?

- Seu pai era muito metódico. Minha responsabilidade era cuidar de você. Quanto ao tesouro, outra pessoa de confiança de seu pai deve ter recebido a tarefa de guarda-lo.

- Pelo visto meu pai não confiava tanto assim em você...

- Pelo contrário, Sarahuan. Você era o maior tesouro de seu pai. Tive muito orgulho de ser escolhido por ele.

- Está bem, Hamat. Mas meu pai quis que voltássemos aqui. Pensei que iria encontrar ossos ou talvez uma mensagem... Mas parece que já limparam tudo aqui. Não vejo nada.

- Seus pais não foram mortos aqui como diz a lenda. Ela serviu apenas para afastar os curiosos. Eles foram levados para Riad e foram executados lá por se recusarem a dizer onde estava o tesouro. O salão foi lacrado pois os lákmidas desconfiavam de que pudesse haver mais algum compartimento secreto que não foi possível encontrar e não queriam que aventureiros, mais tarde, tivessem mais sorte que eles.

- E há algum compartimento secreto?

- Claro que sim mas, pelo que vejo, quase todos foram descobertos.

- Quase? Quer dizer que tem algum ainda intacto?

- Sim. Ele foi lacrado pelo seu pai. Precisaremos trazer os cavalos aqui para baixo.

- Então vamos logo! O tesouro deve estar lá!

As pedras iam sendo removidas uma a uma. As maiores precisaram ser quebradas e, por isso, o trabalho levou alguns dias mas, agora finalmente, restava apenas a porta original do compartimento.

- Proteja seus olhos, Hamat, ou o brilho das jóias irá cega-lo...

- Não tenha tantas esperanças, Sarahuan. Neste compartimento que vamos abrir mal cabem duas pessoas e, mesmo assim, não creio que parte do tesouro tenha ficado aí.

A porta se abriu e o único brilho que se via era o das lanternas já quase sem combustível que eles próprios carregavam. O compartimento estava vazio.

- Não há nada aqui, Sarahuan. Apenas um jogo esquecido de xadrez.

- Sim Hamat - e Sarahuan olhava fixamente para a mesa - o tabuleiro é todo feito em pedras preciosas... Veja as peças... Todas em ouro... Isso deve valer uma fortuna...

- Com certeza, Sarahuan. Mas nem se compara com o tesouro que a sua família tinha.

- Olhe só... As peças parecem que ainda estão na posição de alguma partida interrompida. Talvez a última partida que meus pais jogaram...

- É possível... Se bem que eles não costumavam jogar aqui mas, em todo caso, pode até ser...

Sarahuan olhava fixamente para o tabuleiro com uma cara cada vez mais intrigada...

- Hamat, procure por aí uma torre branca... Não a vejo em lugar algum...

- Aqui no chão tem uma torre branca.

- Sim, mas deveria haver duas. Todas as peças estão aqui exceto por uma torre branca.

- Pode ter se perdido. Aqui não está. Ou talvez tenham levado junto com o tesouro. Na pressa...

Sarahuan fez uma cara de quem viu um fantasma (talvez o do próprio pai) e, em seguida abriu um largo sorriso e deixou seu amigo sem entender nada.

- Talvez você tenha razão, Hamat! Se a torre não está aqui, ela pode estar junto com o resto do tesouro.

- Mas que diferença faz, Sarahuan? Não sabemos onde está o tesouro...

- Por isso é que viemos aqui, Hamat. Para encontrar pistas que nos levem até o tesouro. E eu acho que você encontrou a nossa pista.

- Não estou entendendo, Sarahuan... Talvez haja alguma mensagem embaixo do tabuleiro. Deixe-me vira-lo...

- Não! Não mexa em nada, Hamat! Deixe tudo como está! Não toque em nada!

- Calma, Sarahuan! - Hamat deu um pulo para trás - Calma! O que está havendo? Você viu algum escorpião? Uma cascavel? Não estou vendo nada.

- Não há nenhuma cascavel, Hamat!

Sarahuan olhava fixamente para o tabuleiro. Hamat estava assustado pois seu mestre parecia estar hipnotizado.

- Você está bem, Sarahuan? O que houve? Você encontrou a torre?

- Sim, Hamat! Encontrei! Quero dizer, eu sei onde ela está! Temos de ir imediatamente para Qimahjaeth! Vamos! Mexa-se! Traga os cavalos! Rápido!

No minuto seguinte os dois já estavam seguindo na direção da cidade de Qimahjaeth. Na verdade não chegava a ser uma cidade mas sim uma aldeia. Ela surgiu, assim como muitas outras, como um simples posto de reabastecimento e troca de cavalos a serviço dos correios reais. Os correios eram o símbolo da integração dos povos da região e as longas distâncias através do deserto eram vencidas rapidamente através de um engenhoso método no qual, a cada 80 ou 100 quilômetros, os mensageiros recebiam um cavalo descansado para prosseguir na viajem. No início os postos se resumiam a uma torre de observação, que também servia de abrigo aos cavalos e tratadores, e um poço d’água. Com o passar do tempo, os postos se tornaram aldeias, depois vilas e até cidades em alguns casos. Uma linha imaginária que unisse esses postos seria chamada de rota e, na verdade, haviam duas rotas principais: A que ligava os povos do sul ao castelo era chamada Rota dos Cavalos da Rainha e a que ligava os povos do norte era chamada Rota dos Cavalos do Rei. Qimahjaeth ficava ao sul e, portanto, fazia parte da Rota dos Cavalos da Rainha. Na época em que os correios estavam em atividade, Tiseh era o primeiro posto ao sul e Qimahjaeth, o segundo.

- O que vamos fazer em Qimahjaeth, Sarahuan? Pode me dizer?

- Vamos recuperar nosso tesouro! Ele está lá. Eu tenho certeza.

- Não há nada lá. Aquilo é uma pequena aldeia miserável. Nem Allah está entre eles. Eles acreditam nos deuses mais esquisitos que já vi. Enganam os crédulos e roubam dinheiro dos que passam por lá. É um amontoado de tendas repletas de esquisitices.

- Calma, Hamat, estou apenas seguindo as orientações deixadas por meu pai. Ele disse que o tesouro está lá.

- Falou com seu pai? Poderíamos ganhar muito dinheiro montando uma tendinha em Qimahjaeth. Se acreditarem que falamos com os mortos poderemos conseguir todo o dinheiro que precisamos. É assim que pretende recuperar o tesouro?

- Claro que não, Hamat. E não gosto que faça brincadeiras com meu pai. Temos de encontrar o guardião do tesouro. O homem de confiança dele. E ele está em Qimahjaeth.

- Não tive a intenção de zombar... Você entenderá quando chegar-mos lá. Tome cuidado com qualquer coisa que oferecerem. Não acredite em nada que disserem. Caso contrário, levarão todo seu dinheiro.

- Não se preocupe, Hamat. Não sou mais uma criança...

Ao chegarem na aldeia, o sol estava bem no alto do céu. Os cavalos já estavam exaustos e o calor era enorme. Hamat queria encontrar algo para comer e não podia imaginar como iria conseguir isso em meio àquele formigueiro humano passando pra lá e pra cá por entre as tendas. Os gritos vinham de todos os lados: "Tapetes! Tapetes! Só cinco moedas! Troco por tabaco! Tapetes! Camelos! Temos Camelos! Importados!"

- Eu também estou com fome, Hamat. Precisamos comer alguma coisa.

O apelo de Sarahuan pareceu ser ouvido por Allah. No minuto seguinte um homem pequeno e de barba longa se aproximou deles oferecendo alimentos.

- Minha tenda tem comida. Minha cozinheira é a melhor de toda a região. Por duas moedas vocês poderão comer o que quiserem. Tenho tudo que possam imaginar. Eu os desafio a pedir algo que eu não tenha. Se conseguirem, não pagarão pela comida.

- Duas moedas?! Está vendo, Sarahuan? São ladrões! Vamos procurar outro lugar.

- Espere aí, Hamat. O dono da tenda nos desafiou. Vamos pedir algo que ele não tenha. Assim não pagaremos nada. Vamos mostrar-lhes quem é o mais esperto.

- Esqueça, Sarahuan. Eles vão dar um jeito de nos enganar.

Sarahuan não deu ouvidos ao amigo. Afinal, não tinham nada a perder. Aliás, Sarahuan já devia estar com o pedido na cabeça pois não pensou nem dois segundos antes de arriscar um pedido.

- Peixe! Eu quero peixe fresco!

O dono da tenda curvou-se diante do pedido e, olhando para o chão, respondeu:

- Eu não tenho peixe, senhor, estamos no meio do deserto, portanto não pagará pelo peixe...

- Pagar pelo peixe? Eu quero comida! Eu pedi peixe e você disse que se eu pedisse algo que não tivesse nós não pagaríamos nada.

- O senhor não terá que pagar pelo peixe. Peça outra coisa...

- Vamos embora, Sarahuan. Ele está nos gozando!

- Oh não, senhor! Não estou! Mil perdões. Por uma moeda os dois poderão comer o melhor pão de todo o deserto.

- Você tinha razão, Hamat. São todos uns ladrões mas, de qualquer forma, eu estou morrendo de fome. Espero que esse pão esteja bem assado.

- Meu pão é o melhor de todo o deserto! Vocês vão adorar! Uma moeda por favor...

Hamat jogou uma moeda e os dois se sentaram a espera do pão. Realmente não podiam negar que o cheiro era muito bom. Talvez fosse a fome mas, de qualquer forma, quando a bandeja chegou, comeram até não agüentar mais.

Resolvido este problema, Sarahuan e Hamat continuaram andando por entre as tendas da aldeia. Todas tinham nome: "Tenda dos Milagres", "Espadas de Prata", "Tenda do Fogo" e muitas outras.

- Sarahuan, o que devemos procurar?

- Não sei, Hamat. Se eu tivesse bastante dinheiro, eu entraria em cada uma dessas tendas. Vamos tentar encontrar mais alguma pista, um sinal...

- São milhares de tendas, Sarahuan. Milhares de pessoas. Isso aqui está muito mais cheio que da última vez que estive aqui. Há muitas tendas novas...

- Talvez tenhamos que encontrar as mais antigas... do tempo do meu pai... Você lembra delas?

- As tendas mais antigas ficam perto da torre, por ali... Uma das mais famosas era a "Tenda do Paradoxo". Nem sei se ainda existe.

- Vamos até lá. Algo me diz que estamos perto de encontrar o guardião do tesouro.

A "Tenda do Paradoxo" ainda existia mas, com certeza, era mais bem cuidada no passado. Agora não passava de uma lona suja sustentada por cordas velhas. Nem o cheiro era bom.

- Vamos entrar, Hamat. Vamos comprar um paradoxo!

- Para mim, jogar dinheiro fora é que é paradoxo.

Entraram na tenda e foram recebidos por um velho de barba branca e um turbante encardido.

- Sejam bem vindos à tenda de Farabah. Uma moeda por favor...

Sarahuan colocou uma moeda sobre o tapete onde estavam sentados e então o velho começou a falar.

- Quantas frações existem entre um e um e meio?

Sarahuan pensou por um segundo e, intrigado, respondeu.

- Bem, não dá pra saber, são infinitas...

O velho pareceu nem escutar e continuou falando.

- Quantas frações existem entre um e dez e meio?

- Infinitas também.

- Você me deu uma moeda e eu lhe dei um paradoxo.

- Mas qual? Não entendi! Já acabou?

- Eu lhe provei que existe um infinito maior que outro. Voltem outras vezes, eu tenho um paradoxo para cada moeda em seu bolso.

- Mas que velho sem vergonha. Um infinito maior que outro. Eu não sei como, mas ele deve estar errado. Será possível?

- Eu lhe avisei, Sarahuan, antes do sol se por estaremos sem nenhum dinheiro. É melhor você se controlar.

- Olhe lá, Hamat! Aquela tenda! A placa não lhe sugere nada?

- "Tenda do Tesouro". O nome é sugestivo. Quantas moedas ainda temos?

Os dois iam caminhando em direção à tenda quando foram abordados por uma criança.

- Não entrem lá! Já vi muitos entrarem e nunca mais sair! Venha para a tenda do meu pai. É muito melhor! Lá tem jogos e vocês poderão ficar ricos!

- Não, filho, obrigado. Meu patrão prefere a Tenda do Tesouro. Talvez amanhã...

- Se entrarem lá não haverá amanhã para vocês.

- Sai daqui, garoto, tome uma moeda e suma.

- Obrigado! Que Allah os proteja. Muito obrigado. Mas eu avisei...

Quando entraram na tenda, não havia ninguém para recebe-los. Tiveram de bater palmas até que alguém chegasse vindo dos fundos da tenda. Era um homem muito alto e forte. O rosto estava encoberto e só os olhos apareciam. Ele deu dois passos, parou e cruzou os braços. Outro homem mais baixo, então, saiu dos fundos da tenda e veio até eles.

- Que Allah esteja com os senhores. Não reparem a poeira. As criadas trocarão os tapetes em um minuto.

- Podemos voltar depois...

- Não, Hamat. Vamos esperar. - Sarahuan tinha certeza de que estava no lugar certo. O guardião do tesouro deveria estar por perto. O homem mais baixo tornou a falar.

- São raras as visitas a esta tenda. O povo tem muito medo. Só os corajosos vem até aqui.

- Você quer uma moeda? Porquê esta tenda é chamada Tenda do Tesouro? Porquê as pessoas tem medo de vir aqui?

- Não quero sua moeda. Existe um tesouro nesta tenda. Tão grande que não caberia no rio Eufrates. E ele poderá ser seu.

- Nesta tenda não cabem nem os cavalos que trouxemos - gritou Hamat - Deixe de história! Como funciona a brincadeira?

- Não é uma brincadeira. Descubra o que há em meu bolso e o tesouro virá até vocês.

- E se errarmos lhe daremos uma moeda... Não teremos a menor chance. Sarahuan, vamos embora. Ele deve ter pelo menos uns dez bolsos naquela manta. Ele não nos dará chance.

- Eu não quero uma moeda. Eu já tenho um tesouro! Se vocês errarem, vocês irão até ele.

- Que confusão é essa? - Sarahuan estava começando a achar que aquela era mais uma tenda de ladrões - Se acertarmos o que você tem no bolso o tesouro virá até nós e se errarmos iremos até o tesouro? E onde está esse tesouro?

- No inferno! - respondeu o homem - Por isso todos têm medo. Não precisam arriscar. Podem ir embora. Muitos fazem isso. Mas se tentarem e errarem, serei obrigado a leva-los até o tesouro. Todos tem o direito de vê-lo. Mas devo prevenir-lhes de que não sobreviverão.

- Como saberei que não está me enganando? Quantos bolsos você tem aí?

- Eu serei justo. Se acertar eu lhe trarei o tesouro.

- Sarahuan, ele vai nos enganar. Ele não tem tesouro nenhum. Vamos embora.

- Espere, Hamat. Eu sei o que ele tem no bolso. Só não sei se posso confiar nele.

- Sarahuan, vamos fazer o seguinte: Você me diz o que ele tem no bolso e eu arrisco. Saia daqui agora e me deixe tentar sozinho.

- Oh, vocês podem fazer isso - disse o homem baixo - mas, neste caso, eu também poderei trocar de bolso...

- Como assim? Que diferença faz eu ou ele arriscar? - esbravejou Hamat.

- Que diferença faz qual bolso usar? - retrucou o homem baixo.

- Não adianta, Hamat - interveio Sarahuan - tem de ser eu e eu vou arriscar.

- Não, Sarahuan! Ele vai nos enganar e depois não adiantará arrependimentos.

- Calma, Hamat, eu sei o que ele tem no bolso.

- Você não sabe onde está se metendo, isto sim...

Sarahuan olhou nos olhos do pequeno homem que aguardava impassível. O jovem rei não tinha a intenção de desistir...

- Está bem, Sarahuan, faça o que você quiser. Ao seu lado eu enfrentarei qualquer coisa. O que é que ele tem no bolso?

- Eu vou lhe dizer, meu amigo... e vou dizer também para este velho... Você tem no bolso uma peça de xadrez... Uma torre de ouro branco!

Imediatamente o pequeno homem e o outro atrás dele se ajoelharam e abaixaram o rosto até o chão em reverência.

Segundo a lenda, o Rei Sarahuan Al-Faraq recuperou sua fortuna e expulsou os lákmidas para sempre de suas terras. Até bem recentemente era um total mistério o que o Rei Sarahuan Al-Faraq viu naquele compartimento secreto que pudesse levar à descoberta do tesouro da família. Porém uma rocha encontrada em 1997 na região de Al-Lith, na atual Arábia, continha uma gravura representando a posição das peças no tabuleiro que, segundo a lenda, foi encontrado por Sarahuan.

O arqueólogo que encontrou a rocha associou imediatamente o diagrama à lenda do Rei Sarahuan e levou uma reprodução até o grande enxadrista local, Onam Odranoel. Após narrar toda a lenda para o enxadrista, este começou a falar.

- Este diagrama, na verdade, é um mapa. Ele mostra, com muita precisão, qual foi o primeiro e o último movimento da torre-da-dama branca (ou torre da rainha, como queira). Como uma das torres não foi encontrada junto ao tabuleiro, Sarahuan entendeu que esta era a mensagem deixada por seu pai: Se ele encontrasse a torre, encontraria o tesouro. Portanto, o mapa a sua frente mostrava os movimentos do próprio tesouro.

- Mas eu não vejo linhas ou anotações no tabuleiro. Há apenas as peças.

- De fato, são exatamente as peças sobre o tabuleiro que nos servem de guia. Por exemplo: Quantas peças negras você vê sobre o tabuleiro?

- Quatorze!

- Exatamente. Isso significa que as negras tiveram duas peças capturadas ao longo da partida. Repare na estrutura de peões brancos: Quantas capturas foram necessárias para que essa estrutura fosse possível?

- Bem, bastaria uma: O peão de h2 capturou em g3.

- Muito bem! Qual peça negra foi capturada em g3?

- Não pode ter sido o peão negro da coluna a pois ele não teria como chegar em g3. Só pode ter sido o bispo negro de casas pretas.

- Você acertou novamente. Repare que, para este bispo ter saído de f8, foi preciso que o peão negro da coluna g desse passagem e ele só pode ter dado passagem capturando uma peça branca em f6 (caso contrário este peão jamais chegaria em e5). Qual peça branca este peão, então em g7, capturou em f6?

- Qualquer uma. Quero dizer, uma dama ou um bispo ou uma das torres...

- Preste atenção: A torre-do-rei branca não pode ter sido pois ela estava presa em h1 (o peão de h2 ainda não havia capturado o bispo negro). A torre-da-dama branca também não pode ter sido pois ela jamais conseguiu sair de trás da fileira de peões brancos.

- Restam a dama e o bispo brancos. Pode ter sido uma das duas.

- Exato! Porém, para que o bispo ou a dama branca saíssem, foi preciso que as brancas jogassem Pb3, caso contrário essas peças jamais sairiam. Por outro lado, quando as brancas jogaram Pb3, o bispo negro de casas brancas já deveria estar em a2, (caso contrário ele não teria como chegar ali).

- Já entendi, Onam. Antes das brancas jogarem Pb3, as negras tiveram de levar seu bispo de c8, até a casa a2.

- Estaria tudo bem se não fosse por um detalhe: Para o bispo negro em a2 ter saído de c8, sua casa de origem, foi preciso que o peão negro da coluna d já tivesse capturado uma peça branca em c6 para dar passagem.

- Mas como? Se todas as peças brancas estavam enclausuradas? Você mesmo disse que a torre-do-rei branca só sai quando o peão de h2 sair; que só sai quando o bispo negro de f8 sair; que só sai quando o peão negro de g7 sair; que só sai quando o bispo ou dama brancos saírem; que só saem quando o peão branco em b2 sair; que só sai quando o bispo negro de c8 sair; que só sai quando o peão negro de d7 sair; que só sai quando capturar uma peça branca. Mas não há peça branca que esse peão possa capturar. A posição é impossível!

- Não! Na verdade apenas chegamos à conclusão de que a posição seria impossível se o bispo negro em a2 fosse original. Mas nós acabamos de provar que ele não é!

- Eu acho que não estou mais entendendo...

- A única possibilidade da posição do diagrama ser legal, diante das regras do jogo de xadrez, é o bispo negro em a2 ser um peão promovido.

- Quer dizer que o peão negro da coluna a promoveu?

- Sim! E o fez em b1 que é casa branca. Repare na estrutura de peões negros: Quantas capturas foram necessárias para que ela fosse possível?

- O peão em c6 fez uma captura e o peão em e5 fez duas.

- Temos, no total, três capturas. Quantas peças brancas estão no tabuleiro?

- Doze. Isso significa que as negras fizeram quatro capturas.

- Bem, se a estrutura de peões negros exigiu três das quatro capturas possíveis, o peão negro que promoveu só pode ter feito, no máximo, uma captura. Isto significa que o primeiro lance de peão das brancas foi Pb3.

- Porquê não pode ter sido Pa3?

- Porquê, assim, o peão negro da coluna a jamais passaria. Foi preciso jogar Pb3 e isto significa que o cavalo negro já estava em a1 (senão ele não teria como chegar lá).

- Então foi ele que comeu a torre-da-dama branca?

- Não! Todas as peças brancas foram capturadas por peões negros, lembra? A torre teve de dar passagem e fez isso jogando Tb1 (lembre-se de que o bispo branco ainda estava preso em c1 e o peão de a3 ainda estava em a2).

- Então este foi o primeiro movimento da torre!

- Exato! "Torre Um Do Cavalo Da Rainha". E o último movimento dessa torre, obrigatoriamente, foi Tb1 para b2, isto é, "Torre Dois Do Cavalo Da Rainha", permitindo que o peão negro da coluna a à capturasse e promovesse a bispo em b1.

- Então a posição do diagrama é possível! E como o Rei Sarahuan soube onde estava o tesouro?

- Este mapa mostra exatamente o caminho percorrido pela torre-da-dama branca: O movimento Tb1, entre os enxadristas, também é descrito como "Torre um do cavalo da rainha" e o último lance Tb2 também é descrito como "Torre dois do cavalo da rainha". Sarahuan entendeu que a torre branca viajou, junto com o tesouro, pela rota do sul passando por Tiseh (primeira torre na rota dos Cavalos da Rainha) e Qimahjaeth (a segunda torre na rota dos Cavalos da Rainha).

- Minha nossa! Quer dizer que a história sobre o Rei Sarahuan Al-Faraq pode não ter sido uma simples lenda?

- Bem, isso eu já não posso dizer... Mas, se é uma lenda, quem à inventou é um gênio!

Para ilustrar toda a explicação, Onam simulou uma pequena partida - provavelmente a última partida jogada pelos pais de Sarahuan.

1-Cc3,Cf6; 2-Cb1,Ce4; 3-Cc3,Cc5; 4-Tb1,Cb3; 5-Ce4,Ca1; 6-b3,a5; 7-Bb2,a4; 8-Bf6,PxBf6; 9-Dc1,Bh6; 10-Db2,Bf4; 11-De5,Bg3; 12-PxBg3,PxDe5; 13-Th6,a3; 14-Tc6,Pd7xTc6; 15-Tb2,Bg4; 16-Cc3,Bf3; 17-CxBf3,PxTb2; 18-a3,b1=B; 19-Cg1,Ba2; 20-Cb1 e chegamos à posição do diagrama.


(p)2008 por Leo Mano. Rio de Janeiro - RJ, Brasil.